Os sinais de Deus nos sinais dos tempos



Não é de hoje que muitos falam sobre o fim do mundo. Muitas pessoas, ao serem interpeladas por tal temática, criam uma ojeriza, ficam horrorizadas, temendo a consumação de tudo o que existe sobre a terra. E não é para menos! Pensemos que tudo o que temos hoje, principalmente o que se é julgado por ‘bom’, é fruto de uma história, da existência de inúmeras pessoas que passaram por aqui e que ainda permanecem no hoje, construindo o presente. Assim sendo, a reflexão, ainda que longínqua, sobre o fim do mundo, se torna para tantos uma frustração, pois empenharam todo o seu existir para esta realidade temporal; consumaram seus anos, bens, sonhos... Faz-se urgente para os que creem no Cristo, que renovemos a nossa esperança e fé nas benditas promessas que Jesus nos fez: “Depois de ir e vos preparar um lugar, voltarei e tomar-vos-ei comigo, para que, onde eu estou, também vós estejais” (Jo 14,3). Mas, para que cheguemos a tal grandeza, o próprio Senhor nos aconselha: “Não ajunteis para vós tesouros na terra, onde a ferrugem e as traças corroem, onde os ladrões furtam e roubam” (Mt 6,19).


Fim dos tempos, segunda vinda de Jesus... Tudo o que está ligado a estas ideias, para o cristão, deve ser motivo de alegria, de expectativa: “O Senhor virá. Ele assim prometeu-nos: Vinde, Senhor!”. O fato de o Senhor vir a nós, destruir toda esta opressão presente nesta terra de exílio, de passagem, e levar-nos para junto de si, recapitulando-nos consigo, em sua Glória, é verdade que nos faz enojados do que é transitório, efêmero, trivial, ao tempo em que nos faz ansiar pelo que é verdadeiro, perene, eterno, consumação do que somos. Porém, este enfado às coisas terrenas não nos deve furtar a ideia de que ainda estamos peregrinos, e, que para alcançar a meta, se faz extremamente necessário caminhar. O furtar-nos às coisas terrestres só porque o nosso lugar é o céu é estarmos alheios ao próprio céu, obtido também por nosso comportar-nos aqui. Muitos cristãos demonizam o que é secular. Tal atitude é fruto de um pensamento alienado, pois, mesmo incomodados com tudo isto que vemos no mundo, não nos devemos desencarnar da presente realidade. É necessário que vivamos de tal forma bem, consoante com o Evangelho, na bendita esperança do Senhor, que estejamos unidos a Ele, fazendo do nosso existir a manifestação de Sua própria vida divina. Assim, enquanto não alcançarmos a plena vivência em Deus, que é a nossa vida verdadeira, não estamos alheios a Ele. O viver já neste mundo em Deus, ainda que de forma imperfeita, é um serviço cordial ao Senhor, que nos causa grande contentamento, na expectativa da verdadeira felicidade que só encontraremos n’Ele.


Deus continua falando-nos. Não Se revelando, pois já o fizera por completo ao longo da história da Salvação, em Cristo e no Espírito Santo, mas fala-nos acerca de sua presença ao nosso lado. Esta é uma lição que devemos tirar para a nossa vida: Deus está onde aparentemente não está. Lembro-me de uma interrogação que o Santo Padre Bento XVI fez quando de sua visita apostólica à Polônia. Ao entrar no campo de concentração em Auschiwitz, indagou: “Onde estava Deus?”. Assim, percebemos que as ocasiões de destruição, miséria e dor podem ser momentos de forte fala de Deus, inclusive quando essas intempéries acontecem dentro de nós. A mensagem de Deus é silenciosa, mas certeira; é um sossego entre vicissitudes, porém, comunicante, como expressivo deve ser para nós o grito do Senhor, que nos exige atenção pelos pedidos de socorro e pela vida dos pobres. Neles, vejamos os sinais dos tempos abreviados para que façamos o bem, a justiça, promovendo a caridade; nos sofredores, vejamos os sinais do próprio Deus, como nos solicita este Dia Mundial do Pobre.


Na tradição cristã, a Igreja é retratada com a peculiar imagem de mulher, de esposa. Este arraigado atributo é perceptível em tantos momentos de sua vida, principalmente na Eucaristia, quando, tal como a amada que deseja o objeto do seu amor, a presença do amado, ela clama: “Vem, Senhor Jesus!” (cf. Ap 22,17), ao que, instantaneamente, é correspondida: “Sim! Eu venho depressa! Amém. (Ap 22,20). A Esposa de Cristo, sem ruga e sem mancha, a nossa Mãe (cf. Gl 4,26), pede isso por nós, a cada Liturgia Eucarística, baseada em um dado fundamental: o anúncio do Cristo, morto e ressuscitado: “Todas as vezes que comemos deste pão e bebemos deste cálice, anunciamos, Senhor, a vossa morte, enquanto esperamos a vossa vinda!”; ou ainda: “Anunciamos, Senhor, a vossa morte e proclamamos a vossa ressurreição. Vinde, Senhor Jesus!”. Ao mesmo tempo, a Mãe Católica diz aos seus filhos e à humanidade: “Aquele que tem sede, venha! E que o homem de boa vontade receba, gratuitamente, da água da vida!” (Ap 22,17).


Somos o povo da espera pelo Senhor. A sua vinda encher-nos-á de alegria profunda. Somos firmados na promessa, no seu cumprimento e na expectativa futura: o Cristo nos veio e salvou; o Cristo virá e nos levará consigo: nunca nos descuidemos desta bendita esperança.


Padre Everson Fontes Fonseca, pároco da paróquia Sagrado Coração de Jesus (Bairro Grageru)