Padre Raimundo Cruz: vida e memória

Pe. Gilvan Rodrigues


O tempo é indiferente. Vidas nascem, vidas desaparecem, e ele segue seu ritmo solene e implacável rumo aos acontecimentos que compõem o sentido próprio de sua existência. Ele segue o ritual sagrado do ofício opressor de sua tirania inexorável. Ele desconhece as preces e os desejos ansiosos daqueles que estarão à mercê de sua consumação infrene. De fato, o tempo é a possibilidade dos eventos, como afirmara o grande Teólogo da Sagrada Escritura, Gerhard von Rad, que morreu no ano em que eu nasci, 1970.


No dia 8 de julho de 2014, a Arquidiocese de Aracaju perdeu mais um de seus sacerdotes. O Padre Raimundo Cruz (1941-2014) desapareceu no quarto de um hospital onde se internara durante poucas semanas, por causa da doença que o acossara por anos. Para usar a expressão de Lia Luft, “posso dizer que é a morte que escreve sobre nós – desde que nascemos ela vai elaborando conosco o nosso roteiro. Ela é a grande personagem, o olho que nos contempla sem dormir, a voz que nos convoca e não queremos ouvir, mas pode nos revelar muitos segredos. O maior deles deve ser: a morte torna a vida tão importante! Porque vamos morrer, precisamos dizer hoje que amamos, fazer hoje o que desejamos tanto, abraçar hoje o filho ou o amigo. Temos de ser decentes hoje, generosos hoje... devíamos tentar ser felizes hoje”. A luz desse raciocínio é somente uma inspiração válida quanto ao sentido urgente que devemos dar ao momento histórico em que estamos vivendo em face da morte que tudo pode determinar em nossa vida. O pensamento traz a lume a intuição tranquila de que não deveríamos perder tempo com bobagens passageiras em detrimento do verdadeiro amor que podemos colocar em cada uma de nossas ações existenciais, mas, de modo especial, diante das pessoas que julgamos amar.


Filho de Aquidabã, ele foi o primeiro sacerdote ordenado por Dom Luciano Duarte, num momento em que a Arquidiocese passava por uma tremenda crise vocacional. De 14 seminaristas da Arquidiocese, apenas ele sobrou, subindo os degraus do altar do Senhor para a celebração da Eucaristia. Fora ordenado padre no dia 11 de abril de 1971! Pouco tempo depois do evento histórico do Concílio Vaticano Segundo, com o mundo em reboliço pela inspiração de São João XXIII, o Papa da abertura do grande Concílio, padres do mundo inteiro abandonavam a batina sem cerimônia nem constrangimento. Quem viveu aqueles tempos agitados pelas discussões eufóricas colocadas em pauta no acontecimento, contou o quanto algumas decisões conciliares mexeram com o imaginário coletivo de muitos sacerdotes. Mesmo assim, outros jovens apareciam dispostos a consagrarem sua vida a Deus, como sempre aconteceu e acontecerá na história da Igreja de Cristo. Raimundo Cruz também se apresentou diante do chamado vocacional. Assim, decorrido o período de formação durante os anos de estudos de Filosofia e Teologia no seminário Regional do Nordeste, em Recife, de 1966 a 1970, fora ordenado padre. Jovem sacerdote, animado pelo zelo apostólico e pela salvação das almas, iniciou seu ministério sacerdotal na Região do Vale do Cotinguida, especificamente, em Divina Pastora, Santa Rosa de Lima e Siriri. Fora enviado para pouco tempo ali, mas as necessidades pastorais e a escassez de sacerdotes fizeram com que a missão se estendesse por 12 longos anos, cheios de desafios e dificuldades pastorais. Naquele momento, as paróquias da Arquidiocese de Aracaju estavam se expandindo, e os operários da messe do Senhor ainda eram poucos. Também fora pároco em Nossa Senhora das Dores. No entanto, sempre fiel e obediente à sua vocação e ao seu Bispo, em 1986, fora transferido do interior do Estado para a Capital sergipana, tornando-se Reitor do Seminário Menor “Sagrado Coração de Jesus”, no Bairro Industrial, sendo ao mesmo tempo pároco da Paróquia de São Pedro Pescador no mesmo Bairro. Para lá, eram conduzidos os seminaristas e os vocacionados, a fim de participarem da missa no sábado à noite, o que favorecia efetiva e amistosa interação entre os seminaristas e os leigos da comunidade. Ao mesmo tempo, ainda permanecia Administrador Paroquial em Santa Rosa de Lima e Divina Pastora.


O Padre Raimundo Cruz realizou outros estudos como atualização pastoral, em Puebla, no México, atualização bíblica, em Jerusalém, e espiritualidade sacerdotal, em Roma. Entre outras atividades pastorais na Arquidiocese de Aracaju, ele foi Coordenador Arquidiocesano de Pastoral, do ensino religioso em Sergipe, membro do Conselho Presbiteral e de Consultores, Cônico capitular do cabido arquidiocesano, pároco da Paróquia São Pedro e São Paulo, Administrador Paroquial da Paróquia Nossa Senhora de Fátima, no Ponto Novo, Vigário Episcopal para as vocações, Reitor do Santuário Nossa Senhora Menina e Pároco da Paróquia Sagrado Coração de Jesus, no Grageru. Foi o Padre Raimundo Cruz quem me recebeu no Seminário Menor de Aracaju, no dia 14 de fevereiro de 1987, com outros 35 jovens seminaristas, entre os quais estava também o Padre Jadson da Silva Ramos, que estudou comigo até o final do curso de teologia, em Brasília. Há poucos dias, revirando papéis de mudanças – são tantas as descobertas nessas ocasiões – encontrei a carta que ele me enviou, sugerindo a lista do que deveria levar para o Seminário, uma espécie de “enxoval seminarístico”.


Hoje, muitos sacerdotes da Arquidiocese foram formados e “plasmados” pelo timbre exigente e severo de suas orientações formativas. Como muitas vezes ouvimos de Dom Luciano Duarte, não importam as fraquezas de um sacerdote, ele deve sempre ser considerado como um “homem de Deus”, chamado e escolhido para engrossar as fileiras de sua milícia. Foi, pois, inspirado pela falta de vocações sacerdotais e religiosas, que Dom Luciano Duarte criou com a ajuda de alguns leigos do Movimento Serra Clube de Aracaju, cujo apostolado fomenta o apoio espiritual e material às mesmas vocações, a “oração pelas vocações sacerdotais e religiosas”, rezada em todas as missas, há mais de 40 anos. Logo, foi nesse contexto de oração pelas vocações ao Senhor da messe, que o Padre Raimundo Cruz viu florescer, de maneira palpável, o germinar de inúmeras vocações sacerdotais como resposta fiel do mandado do Senhor – “Pedi, pois, ao Senhor da messe que mande operários para a seara”. Tudo isso nasceu anos atrás, e se desenvolveu a olhos vistos por Dom Luciano Duarte, o Padre Raimundo e muitos leigos engajados na Pastoral Vocacional, sem falar do testemunho vivo de muitos sacerdotes que são frutos daqueles tempos de intenso apostolado vocacional. Depois, veio Dom José Palmeira Lessa, o Arcebispo Metropolitano de Aracaju, que também colheu e colhe os frutos das sementes plantadas por Dom Luciano Duarte e pelo Padre Raimundo Cruz. Bem nos ensina São Paulo que um é o que planta, outro é o que colhe, mas é Deus quem faz produzir os frutos necessários para o louvor de sua glória. Tudo isso, considerando também os frutos colhidos pela própria semeadura de atividades pastorais posteriores àquele início difícil, com o incentivo dos Bispos do Sub Regional, liberados por Dom José Palmeira Lessa, para a criação do Seminário de Filosofia e Teologia no próprio Estado de Sergipe.


Os padres passam, os bispos passam, mas a Igreja de Cristo permanece espalhando no mundo o “bom odor de Cristo” para a salvação das almas. Não somos juízes das ações de ninguém, de nenhum irmão sacerdote, ou de qualquer outra pessoa. Às vezes, incompreendido, sozinho, vítima da maledicência, injuriado, recolhido na solidão mais profunda de seu ser, o sacerdote derrama as lágrimas que lavam o rosto de Cristo que sofreu pela humanidade. Por isso e por tantos outros mistérios que envolvem a vida dos consagrados, devemos reconhecer que a vida de nenhum homem consagrado a Deus é derramada em vão no canteiro de sua Igreja. Só Deus é o juiz de todos e saberá ponderar com transparência de justiça e misericórdia a vida e as ações de seus eleitos. Com efeito, Ele, que colhe com sabedoria e equidade os frutos da vida de seus escolhidos, também concederá a cada um o prêmio que tiver merecido pelo cêntuplo garantido aos que deixaram tudo e O seguiram. Que sua misericórdia e seu amor cubram pelos séculos eternos a vida e a memória dos que tentaram ser fiéis até o fim, não obstante as fraquezas humanas, porquanto, sem reservas, eles Lhe consagraram a vida em benefício de seus irmãos.


Quando as folhas secas da vida sacerdotal despencam e caem da árvore de sua existência, vencidas pelo próprio tempo de sua durabilidade, o Senhor ainda saberá colher a seiva original daquele instante em que elas eram vicejantes e frondosas, porque tudo é mérito de seu próprio coração, transbordantemente, sacerdotal. Descanse na paz do Senhor, Padre Raimundo Cruz.


Pe. Gilvan Rodrigues é pároco da paróquia Nossa Senhora do Mundo (Conjunto Médici, Aracaju)