• Pe. João Claudio

Razão, Coração e Conversão



Em muitos momentos da vida descobrimos a importância de deixar-se guiar pelo coração. Quase sempre queremos ter razão e pensamos que tudo na vida deve ser conduzido pelo esforço racional, pelos cálculos e projetos de uma razão que não se reconhece mais como criada por Deus, mas deseja assumir o lugar do Criador da Existência, do Céu e da Terra.


Os pensamentos e raciocínios que derivam da razão devem fazer de nós pessoas mais humanas e fraternas. Este é o projeto de Deus, dando-nos a Terra para que a dominemos, segundo a linguagem do Livro do Gênesis, ou seja, para torná-la sempre mais habitável e acolhedora para todos.


Há uma outra Terra que deve ser cuidada e se trata da razão. A Santa Mãe Igreja, nos educa na fé, de modo que na oração pessoal diária fazemos o exame de consciência e na celebração da Santa Missa, rezamos o ato penitencial, dizendo: “Confesso a Deus, Todo-poderoso e a vós, irmãos e irmãs, que pequei muitas vezes, por pensamentos...”. Quanto a razão aprendeu a pensar mal das pessoas?


A razão, iluminada pela fé, deve empregar esforços para incluir. A razão que cria instrumentos de exclusão contraria a vontade de Deus. Pensamos sempre que o outro está errado e estamos cobertos de razões. Afinal, é o outro que precisa mudar e nós somos os modelos das perfeições. A Escritura aborda tal realidade da seguinte forma: “Tira primeiro a trave de teu olho e assim verás para tirar a palha do olho do teu irmão” (Mateus 7,5). Alegraríamos o coração de Deus se assumíssemos o compromisso de pensar bem do outro, pensar compreendendo, perdoando, acolhendo, como Deus pensa sobre cada um de nós.


Há outra Terra que deve ser cuidada constantemente: o coração. Do mesmo modo como cuidamos daquilo que pensamos, devemos cuidar daquilo que sentimos com dedicação redobrada, uma vez que em muitas situações o coração anima a razão, estimulando-a com novas esperanças. Retomando a obra de Pascal, é preciso afirmar que o coração tem outras razões para acreditar e estão sintetizadas no fato de que Deus acredita em nós. Quando os outros não acreditam, Deus continua acreditando em nós. Quando sequer acreditamos em nós, Deus não abre mão de acreditar que podemos mudar, que podemos pensar bem uns dos outros, que podemos sentir e fazer coisas boas e agradáveis aos seus olhos, que podemos dizer SIM ao trabalho de conversão que Ele está realizando em nosso coração.


Deus está retirando coisas ruins guardadas no nosso coração. A Escritura diz em que consistem tais coisas nocivas: “[...] é do interior do coração [...] que procedem os maus pensamentos: devassidões, roubos, assassinatos, adultérios, cobiças, perversidades, fraudes, desonestidade, inveja, difamação, orgulho e insensatez” (Marcos 7:21,22). Aqui está o que deve ser evitado a todo custo, pois são sentimentos que maculam o coração e Deus não quer que tenhamos um coração maculado, manchado e sujo pelo pecado. O nosso coração possui dois modelos: o Coração de Jesus e o Coração de Maria.


Não há como separar o coração da Mãe do coração do Filho, pois em tudo Maria cumpriu a vontade de Deus. Maria assumiu os pensamentos, os sentimentos, as ações de Deus em toda a sua vida. O Coração de Maria é inteiramente Imaculado, é a Terra que abriga os mais belos frutos da graça divina.


O nosso coração pode ser assim? É verdade que carregamos o fardo do pecado original e muitas vezes não fazemos o bem que queremos e deixamos de fazer o bem que desejamos. É importante que não alimentemos o coração velho com pensamentos e sentimentos ruins. Precisamos alimentar o coração novo com tudo aquilo que procede do Espírito Santo. Paulo mostra quais são os sentimentos que devemos cultivar: [...] revesti-vos de [...] misericórdia, de bondade, humildade, doçura, paciência. Suportai-vos uns aos outros e perdoai-vos mutuamente, toda vez que tiverdes queixa contra outrem. Como o Senhor vos perdoou, assim perdoai também vós” (Col. 3:12,13).


Assim, o coração é lavado pelas águas do perdão e se torna novo em folha, como saído das mãos de Deus, Pai e Criador de todas as coisas. Cultivando os sentimentos do Espírito Santo, permanecemos no Doce Lar que é o Coração Imaculado de Maria. Há Casa melhor para nos abrigar? O Coração Imaculado de Maria é o Porto Seguro da vida, escudo e defesa, é segurança e conforto. Com a Santa Igreja de Jesus, nós queremos rezar: “Coração Imaculado de Maria, sede nossa proteção e nossa guia”.


Padre João Claudio é pároco da paróquia Nossa Senhora Aparecida (bairro Farolândia, Aracaju)