Recriados: curados para curar; libertados para libertar

Chamo-lhe, caro leitor, de imediato ao início destas linhas, atenção para o verbo “curar”. Na Língua Portuguesa, este termo possui um duplo significado: curar pode ser sinônimo de “sanar”, de “sarar”; como pode designar também “cuidar”. Quando, nos Evangelhos, vemos alguma cura operada pelo Senhor, os dois sentidos se fazem latentes, se imbricam. Porém, a verdadeira e extrema cura realizada pelo Senhor estará quando, expirando o Seu Espírito Santo (cf. Jo 19,30) para a nossa libertação, no patíbulo da Cruz, Ele nos sara, nos sana na amizade com Deus, na nova e eterna aliança; cuida de nós de maneira única.


No trecho do Evangelho de São Marcos (cf. Mc 7,31-37), temos, na gestualística do “éfeta”, quando o Cristo impôs os Seus dedos nos ouvidos e, cuspindo, com a saliva, tocou a língua daquele homem surdo-mudo (cf. Mc 7,33), uma clara referência à nova criação. No sinal daquela cura, naquele homem, o Senhor alude à constituição do novo povo, que, recriado, louva a Deus. Notemos a sucessão de fatos: Jesus retira-Se com o que haveria de ser curado para fora da multidão, para dizer da necessidade da intimidade com Deus, que nos proporciona uma nova humanidade, afastando-se das distrações e contratempos do mundo. Estar com Jesus, sendo-Lhe íntimo, é princípio de vida nova; é ocasião de nos “apaixonarmos” por Ele, de tal maneira que não nos comediremos, após têrmo-lo escutado por primeiro – a Palavra encarnada que deseja Se encarnar em nós –, falando Dele com amor, com entusiasmo, tal como fizeram aqueles que presenciaram a cura e que depunham: “Ele fez bem todas as coisas: aos surdos faz ouvir e aos mudos falar” (Mc 7,37), porque viam e escutavam o curado, sendo testemunhas.

A cura do Evangelho em questão é tipo daquela consumada na Cruz, ou seja, da nossa redenção; da nossa recriação. E o que Cristo pede aos novos homens, recriados pela expiração do Seu Espírito na Cruz? Que, após O termos escutado por primeiro, numa intimidade com Ele, demos-Lhe uma resposta de amor, segundo toda a potência do nosso coração: que O amemos sobre todas as coisas e aos nossos semelhantes em vista do Seu amor divino (cf. Lc 10,27; Mc 12,29-34; Mt 22,36-40). Quer que, curados, curemos; libertados, libertemos, a fim de que a Sua graça não nos seja concedida em vão.


São Paulo, escrevendo aos gálatas, faz uma conjugação entre liberdade e caridade: “Vós, irmãos, fostes chamados à liberdade. Não abuseis, porém, da liberdade como pretexto para prazeres carnais. Pelo contrário, fazei-vos servos uns dos outros pela caridade, porque toda a lei se encerra num só preceito: ‘Amarás o teu próximo como a ti mesmo’ (Lv 19,18)” (Gl 5,13-14). Logo, se não fizermos a experiência do amor com Ele, tal como o surdo-mudo atraído por Jesus para afastar-se da multidão, experimentando-O, não O ouviremos, tampouco seremos capazes de, com o nosso testemunho incontido, animado, destemido, anunciá-Lo, porque teremos um coração impenetrável e inerte à linguagem do amor que se nos abre e que deveremos comunicá-la com o espírito de liberdade.


De maneira prática, ao que nos parece, a comunidade cristã à qual escreve Tiago – embora a sua carta seja universal, porque é católica – estava com dificuldade de curada, curar; libertada, libertar (cf. Tg 2,1-5). Não se recordava de que a mensagem da salvação de Cristo, a recriação por Ele feita tem a todos por destinatário. Isto porque fazia, dissimuladamente, acepção de pessoas, catalogando-as pela ostentação e pelas posses. Diferenciava o tratamento entre os fiéis, seus irmãos, seccionando-os entre ricos e pobres. Será que isto também acontece em nosso meio, quiçá em nossas assembleias? Combatendo tal prática vergonhosa, fruto de um pensamento igualmente infame, belíssimas são as palavras de São Tiago: “Meus queridos irmãos, escutai: não escolheu Deus os pobres deste mundo para serem ricos na fé e herdeiros do Reino que prometeu aos que o amam?” (Tg 2,5). Esta mesma realidade cantou a Santíssima Virgem Maria no Magnificat: “[O Senhor] derrubou do trono os poderosos e exaltou os humildes. Saciou de bens os indigentes e despediu de mãos vazias os ricos” (Lc 1,52-53).


Há muita gente pobre de posses e de coração; existe muita gente abastada de domínios e de si mesma; há também pessoas miseráveis de bens e com o seu interior abarrotado de soberba; como tem muita gente endinheirada, mas com o coração pobre. Nunca nos esqueçamos: as únicas riqueza e pobreza que contarão diante de Deus são as do nosso interior, esvaziado de nosso orgulho, desejoso de ser preenchido pelo Altíssimo, como caminho de liberdade para herdarmos, curados, o que realmente vale a pena: o Reino, pois isto o Senhor mesmo nos garantiu no Sermão das Bem-Aventuranças: “Bem-aventurados os que têm um coração de pobre, porque deles é o Reino dos céus! (Mt 5,3). Os seus sinais não serão outros: recomendando-se pela humildade de coração muito mais do que falta de riquezas, frutificarão em boas obras: recriados, colaborarão com Deus na nova criação em Cristo; curados, curarão; libertados, libertarão.


Padre Everson Fontes Fonseca,

Pároco da Paróquia Sagrado Coração de Jesus (Grageru)