• Carlos Barbosa 2255/SE

Santa Maria, Mãe da Liberdade



Da Carta de São Paulo aos Gálatas (cf. Gl 4,4-7), lemos ricas palavras, que nos inserem em uma profunda realidade: a da nossa Redenção.


O Apóstolo, ao reconhecer a especialidade do tempo em que Jesus, o Salvador, veio ao mundo, dirá: “Quando se completou o tempo previsto, Deus enviou o seu Filho, nascido de uma mulher” (Gl 4,4). Em outras traduções, esta temporalidade da chegada do Senhor é chamada, com toda a justeza, de “plenitude dos tempos”, fazendo significar a especialidade deste nascimento, não somente pela catastrófica situação em que a humanidade estava mergulhada no seu pecado, mas, acima de tudo, por Aquele que nos veio para a nossa libertação.


Cristo, ao encarnar-Se, fez-Se servo, fez-Se escravo. Assumindo a condição humana, fazendo-Se fraco (num processo de abaixamento que, na Teologia, é denominado kênosis), com exceção do pecado, veio para fazer-nos fortes. É diante desta consciência, que São Paulo, dessa feita escrevendo aos Filipenses, exortando-nos aos mesmos sentimentos do Cristo, numa espécie de hino, dirá: “Ele [Jesus Cristo], existindo em forma divina, não considerou um privilégio ser igual a Deus, mas esvaziou-se, assumindo a forma de escravo e tornando-se semelhante ao ser humano” (Fl 2,6-7).


Cristo fez-Se escravo, nascendo da Virgem Maria, porque dela herdou a Sua humanidade. Entretanto, no seio da mesma Senhora há a transição da escravidão para a liberdade, porque, fazendo-Se um de nós, o Cristo nos fez livres, com uma liberdade existente só em Deus, porque somente no Ser Divino encontra o homem o seu sentido de viver, a sua liberdade, portanto. Fora de Deus, alheios à Sua graça, somente encontraremos a libertinagem, uma ilusória razão de vida.


Maria, por ser Mãe de Deus, é igualmente Mãe da Liberdade, por ser ela a Mãe do Libertador. E, com isso, o sinônimo de ‘nascer de mulher’ como referência à uma condição de pecado, de sofrimento, de escravidão, tal como São Paulo observa, se transmuta para ter o significado da graça. Dessa maneira, lemos ainda: “Deus enviou o seu Filho, nascido de uma mulher, [...] a fim de resgatar os que eram sujeitos à Lei e para que todos recebêssemos a filiação adotiva” (Gl 4,4.5); e mais: “Assim, já não és mais escravo, mas filho; e se és filho, és também herdeiro: tudo isso por graça de Deus” (Gl 4,7).


Neste mesmo sentido, Maria, Mãe do Redentor, como criatura que é, por causa dos méritos de seu Filho, é a primeira dentre os redimidos, dentre os libertados. Neste sentido, o Papa Bento XVI dirá: “Depois do fracasso dos primeiros pais, o mundo inteiro está às escuras sob o domínio da morte. Agora, Deus procura entrar de novo no mundo; bate à porta de Maria. Tem necessidade do concurso da liberdade humana: não pode redimir o homem, criado livre, sem um ‘sim’ livre à sua vontade. Ao criar a liberdade, de certo modo, Deus se tornou dependente do homem; o seu poder está ligado ao ‘sim’ não forçado de uma pessoa humana” (Jesus de Nazaré: a infância de Jesus, p. 37), e esta pessoa é Maria. E por que ela responde livremente? Porque sente dentro de si, como primeira dentre os redimidos, os sinais de seu Filho e Redentor, antes mesmo de concebê-Lo no seu ventre virginal. Neste vislumbre, a Constituição Dogmática Lumen Gentium pontua: “Quis o Pai das misericórdias que a Encarnação fosse precedida pela aceitação daquela que era predestinada a ser Mãe de seu Filho, para que, assim como uma mulher contribuiu para a morte, uma mulher contribuísse para a vida” (n. 56). Maria tornou-se, por causa do nosso único Redentor, Mãe Redentora. E, sendo-a de fato, canoniza a figura da mulher, que, até então, estava em prejuízo nas páginas da Sagrada Escritura.


E mais: livre, Maria nos dá altas lições de liberdade porque sempre guardava os fatos e meditava sobre eles em seu coração (cf. Lc 2,19). Assim, a liberdade não é fazer o que se quer, mas um abandonar-se nas mãos e na lógica de Deus, que nos fez livres, à Sua imagem e semelhança (cf. Gn 1,27).


Muitos de nós, cristãos, precisamos descobrir (ou mesmo redescobrir) a objetividade desta liberdade trazida por Deus pelo ventre de Maria. E mais: não apenas descobrir, mas ter o discernimento, amparado pelo contraste com a Palavra de Deus, de que situação de pecado precisa, em Cristo, se libertar. Esta atitude consiste em saber, a exemplo da Virgem Santíssima, ler a vida sob a luz de Cristo, que nos faz livres. Então, peçamos a Maria, Mãe Libertadora, que, com o seu gesto e intercessão, nos ensine um “sim” ao projeto de Deus, que nos traz libertação das mais diversas escravidões em nossa vida. Para isto, envolvamo-nos com a luz do Libertador, Daquele que nos libertou para a liberdade (cf. Gl 5,1). Seja este o nosso propósito para o Ano Novo!


Padre Everson Fontes Fonseca é pároco da Paróquia Nossa Senhora da Conceição do Mosqueiro.