Santidade, resposta e felicidade



Muitíssimo podemos afirmar acerca dos santos, principalmente tomando por base as Sagradas Escrituras e todo o arcabouço teológico da Santa Igreja de Cristo.


Refletindo sobre o chamado à santidade no mundo atual, o Santo Padre Francisco, na Exortação Apostólica Gaudete et Exsultate, relembra aos cristãos que não estamos sozinhos neste processo ascendente denominado santidade, mas que “os santos, que já chegaram à presença de Deus, mantêm conosco laços de amor e comunhão” (n. 4). E continua: “Podemos dizer que ‘estamos circundados, conduzidos e guiados pelos amigos de Deus. […] – Ao que nos conclama à fé, se utilizando das palavras do grande e luminoso Bento XVI: – ‘Não devo carregar sozinho o que, na realidade, nunca poderia carregar sozinho. Os numerosos santos de Deus me protegem, amparam e guiam’” (Ibidem). Logo, conceituando quem são os santos, poderíamos, de antemão, nos utilizando das palavras dos papas, afirmar que são os amigos de Deus postos ao nosso lado para, com os seus exemplos sobretudo, conduzir os cristãos que marcham para o Céu, inclusive, protegendo-nos como amigos nossos.


Mas, Francisco vai recordar-nos um dado bastante interessante: quando refletirmos em pessoas santas, “não pensemos apenas nos que já estão beatificados ou canonizados. […] Nessa constância de continuar caminhando dia após dia, vejo a santidade da Igreja militante. Esta é muitas vezes a santidade ‘ao nosso lado’, daqueles que vivem perto de nós e são um reflexo da presença de Deus” (nn. 6.7). Isso para dizer que a santidade é uma larga porta aberta para todos os batizados. Não é um projeto para um futuro post-mortem, para o amanhã, mas um plano para já, para agora. E, assim, encontramo-nos com muitos de nós que, já em vida, exalam esta santidade querida por Deus e necessária como resposta à salvação trazida à humanidade pelo Cristo imolado na cruz. Pessoas que, neste mundo, estão a lavar e alvejar as roupas das suas almas no sangue do Cordeiro em meio às grandes tribulações deste mundo tão pernicioso (cf. Ap 7,14).


Celebramos a santidade de Deus em seus filhos. Entretanto, com maior afinco, celebrizamos os nossos irmãos que, após as tormentas desta vida, passaram por elas cultivando a santidade de Deus em seus corações. Comemoramos a cidade do céu, a Jerusalém do alto, nossa mãe (cf. Gl 4,26), onde nossos irmãos, os santos, separados deste mundo já antes da morte, porque não se deixaram ou não se conformaram em se contaminar por ele, cercam e cantam eternamente o louvor divino, contemplando, na glória, Deus face-a-face. Pessoas que se esmeraram em viver o que, humanamente, é impossível: ser semelhante pela vida de santidade e pureza a Deus. Sim, a obra da santidade é um chamado universal, para todos. Porém, somente alguns se aventuram em alçar a graça de Deus. Porque ser santo é viver no constante esforço, na contínua tensão de corresponder à graça santificante de Deus.


A vivência da santidade neste mundo é uma antecipação daquele outro que virá e ao qual ansiamos em todo instante. O que era imaginado apenas para Deus, a santidade, é um sério convite para que nos associemos à divindade. Pela glória dos céus, na plenitude da santidade, seremos divinizados em Deus mesmo.


Enquanto tal bem-aventurança não nos chega em sua perfeição e em realidade gloriosa, Cristo sempre refulgirá como único modelo a ser seguido diante daquele que deseja, com ardor, a santidade. Por isso, São Mateus, no seu Evangelho, introjeta-nos nas atitudes de Jesus, que, para explicitar o caminho das bem-aventuranças, vendo as multidões (cf. Mt 5,1) – porque, como já dissemos, a santidade é uma vocação universal –, sobe ao monte e senta-se. De tal modo, como Mestre de santidade, daria ali as lições para a subida exigentemente escarpada para o verdadeiro Monte, onde habita Deus e para onde deveremos ficar com mãos limpas e inocente coração (cf. Sl 23,3). Mas, percebamos que somente alguns das multidões se aproximam: os discípulos, ou seja, os que querem seguir, pela escuta e pela imitação, o Mestre, comprometendo a vida por inteiro.


Somente pelo caminho evangélico das bem-aventuranças é que o homem encontrará a sua verdadeira e única felicidade, pois não existe autêntico prazer fora, distante de Deus. Logo, o santo é aquele que deseja, a todo custo, ser feliz, porque felicidade é sinonímia de bem-aventurança. Após uma vida de exigências necessárias à nossa purificação, estará reservada incalculável recompensa para aqueles que, radicalmente, imitam o Cristo.


Padre Everson Fontes Fonseca, pároco da paróquia Sagrado Coração de Jesus (Grageru).