Sejamos trigo de Deus



O capítulo treze do Evangelho de São Mateus é conhecido como “Sermão das parábolas”. Contemplamos Jesus que – sentado à orla do Mar da Galileia, em Cafarnaum, utilizando-Se de uma linguagem marcada pela simplicidade – apregoa figurativamente sobre os mistérios do Reino. Pedagogicamente, o Senhor estabelece uma comparação inusitada: fala de uma plantação de trigo, sabotada pelo semeio de joio (cf. Mt 13,24-30.36-43).


Toda cultura ocidental foi construída tendo por base o Evangelho de Jesus, fielmente anunciado pela Igreja. Mesmo tendo esta raiz, percebemos que a vivência da Palavra está bem aquém do almejado. Às vezes, parece-nos que o mundo hodierno passa por longe daquilo que fora querido pelo Senhor e eternizado pela Divina Palavra: Escritura e Tradição. Este pensamento não está errado. Ao tempo em que o Divino Semeador lançou as suas “sementes”, o maligno espalhou o seu joio. Porém, não caiamos no maniqueísmo (doutrina que prega que o bem e o mal, duas forças antagônicas e com poderes similares, estejam sempre em luta constante)! Sabemos que Cristo, o Eterno Bem, venceu, irreversivelmente, o mal. No entanto, mesmo com esta certeza o demônio não desiste das suas insídias: o “derrotado” sempre investe contra nós; mesmo sabendo que o seu trabalho está sendo feito em vão, ele insiste.


O Divino Agricultor lança a “boa” semente no seu campo. A Palavra Eterna jamais pode ser tida como uma erva daninha: a bondade é um adjetivo que lhe é peculiar. A Palavra de Deus, derramada profusamente sobre o mundo, é dotada de uma beleza maravilhosamente inenarrável. O Senhor fez-nos conhecer a sua vontade! Ambicionando destruir os planos de Deus, o diabo lança a sua semente. Ele assim o faz graças à negligência, não do Sublime Lavrador, mas dos obreiros desta bendita lavoura. No texto em português está: “Enquanto todos dormiam” (Mt 13, 25). Porém, no original grego, lê-se: “Enquanto os outros homens dormiam, veio o seu inimigo…”. Portanto, a deficiência não está Naquele que lavrou, mas nos que foram incumbidos à diligência para com o campo, que, posteriormente, desejarão tomar uma atitude precipitada a fim de impedir o crescimento do número daqueles que se aliarão ao mal, tentando, dessa forma, remediar a situação. O descuido pode ter acontecido, não por preguiça ou coisa parecida, mas, muitas das vezes, por causa das fragilidade e limitação daqueles que são instituídos pelo Dono da Messe como insignes vigilantes.


À ideia da dormição dos “outros homens”, mostra-se a noite, onde, figurativamente, há uma ausência de Deus. É neste momento que aparece o inimigo, espalha a sua semente e sai. Sai porque não quer se comprometer de maneira alguma com aqueles que ele arrasta para si; ele apenas quer provocar desordem. Ora, à semente do inimigo o texto grego denomina “cizânia”. Esta é uma semente que, quando germina, a sua planta possui a aparência de trigo, podendo diferenciá-la com bastante dificuldade. Com isto, quando a noite do pecado (ausência de Deus) sobrepuja o mundo, temos a sensação de que os sêmens do mal são mais numerosos e potentes do que os espalhados por Deus. E ainda mais: temos a pretensão de pensar que as pessoas más e as boas são indistintas, não sabendo diferenciar os que são de Deus (que, em muitas das vezes, estão em minoria) dos que são “embaixadores do maligno” no campo chamado mundo.


O mal é tão vergonhoso e horrendo que utiliza a carapaça de bem para atrair aliados para si. O diabo, como “pai da mentira”, nunca vai utilizar a sua real identidade para avocar para si. Aqui, é salutar bastante discernimento, já que, em muitas situações, o mal vem disfarçado de bem, e, se não tivermos uma prudente certeza, poderemos cair na desventura de trocar o “certo pelo duvidoso”, tal como afirmamos no dito popular. Na atualidade, temos exemplos disso: o crime do aborto ser tido como direito de quem o pratica; a desonestidade como valor; a utilização de máximas evangélicas (como o “Amai-vos uns aos outros”) como slogans de passeatas gays, com a vã tentativa de fundamentá-la na Sagrada Escritura; o despudor ser considerado moda; guerras e cenas de violências praticadas em nome de Deus, justificadas pela religião; a Palavra do Evangelho manipulada como meio de enriquecimento monetário; pessoas enganadas por seitas que pregam benefícios materiais e uma vida mansa; dentre outras ilustrações. O que seria isto senão um crescimento do joio no meio do trigo? De um revestimento do mal ao tempo em que igualmente cresce o anúncio do Reino? O mesmo mundo que é capaz de gerar cristãos autênticos faz brotar, graças às ideologias demoníacas em voga, “pessoas que se comprazem em praticar o mal” (Sl 5,7).


Deus, em Sua eterna paciência, não assiste passivo esta situação: Ele apenas deixa acontecer. Não podemos nos abater pelo desespero, porque, no “Dia do Senhor”, todos terão a sua recompensa: ouviremos o Senhor da Messe: “Arrancai primeiro o joio e amarrai-o em feixes para ser queimado! Recolhei, porém, o trigo em meu celeiro!” (Mt 13, 30). Prestemos atenção na força de linguagem utilizada por Jesus para falar do joio: “arrancai” – puxai energicamente, pois ele está apegado ao mundo; “amarrai em feixes” – tratai-o como algo qualquer que não possui nobreza alguma, tampouco merece ser dada atenção; “queimai” – fazei com que a sua lembrança seja exterminada, reduza-se a cinzas, só assim, o mal não voltará a se alastrar. Já com o trigo: “recolhei” – tratai com delicadeza, com atenção; “em meu celeiro” – local onde é destinada toda a produção de um trabalho, ou seja, o Céu; nele serão reunidas todas as riquezas do Divino Agricultor.


Que sejamos trigo no celeiro de Deus ainda que, por hora, sejamos vizinhos ao crescimento do joio, da cizânia e do mal neste mundo.


Padre Everson Fontes Fonseca, vigário paroquial da Paróquia São João Batista (Conj. João Alves)