Ser como Deus



Ao celebrar a solenidade de Nossa Senhora da Conceição, deparamo-nos com um mistério inigualável: a criatura ser como o Criador, no quesito ausência de falhas, de erros, de pecados. Parece impossível... A isso o evangelista responde: “Porque para Deus nada é impossível” (Lc 1, 37). E tem mais: pela arrogância, já inúmeras vezes tentado, ser como Deus é impossível. De igual modo, pela presunção ou prepotência, pela discriminação, pelo preconceito, pela força ou pelo mando. Não! Jamais!


“Eu te dou graças, Senhor do céu e da terra, porque escondeste estas coisas aos sábios e entendidos, mas as revelaste aos pequeninos” (Mt 11,25). É nesse diapasão que se pode ter uma noção do que ocorreu àquela jovem de Nazaré, na Galileia dos pagãos, num rincão distante da fé professada no Templo, lá onde a rudez parecia imperar, onde o paganismo, influenciado pelas distâncias do grande centro religioso, campeava. Ali, as pessoas têm uma aparência de atraso, de subdesenvolvimento. Galileia é uma vila sem projeções, sem futuro... é um nada aos olhos dos homens, inclusive dos que se diziam Doutores da Lei, Mestres em Israel, doutrinadores do judaísmo herdado de Moisés.


Ali, vive uma jovem sonhadora, prometida em casamento, como as demais de sua época. Uma diferença: ela tem por projeto ser "desprogramada", destituída de qualquer meta que não seja cumprir a vontade de Deus. Não é de linhagem importante, pois só lhe restou o subúrbio da história. Nela, o Senhor haveria de “realizar grandes coisas”, pois se serviu de sua pureza, de sua serviçalidade fiel e de sua fidelidade serviçal, para um projeto bem maior que a humanidade experimentaria, sem mesmo ter noção do seu autêntico sentido. Deus a visitou, porque ela o tempo todo se fez pequenina, sem pretensões, sem arroubos de uma juventude tresloucada. Apenas desejou servir a seu modo o Senhor.


Assim, por esta via de submissão, de entrega, de abandono nas mãos do Senhor, Maria deixou-se moldar pela divina vontade: “Eis aqui a serva...” Bem soaria aos quatro ventos da humanidade de hoje esse fazer-se nada, esvaziamento de si, abandono pleno do eu, para acolher o totalmente Outro, o Diferente... Hoje há grandes na tecnologia, na informação, no capital, nas ideias... continuam os sonhos de dominação, de senhorios desmedidos e inescrupulosos... Como soaria o sim daquela jovenzinha que se fez serva? Loucura? Escândalo? Bem preconizou o Apóstolo das Nações (1Cor, 1,23-24) que tudo o que é vil e desprezível aos olhos dos soberbos, Deus transforma em Sabedoria e em Salvação.


Maria nunca desejou ser como Deus, nem quis ser rainha, sem princesa, mas apenas a servidora da Justiça e do Amor, da Ternura e da Paz. Por sua entrega plena, sem entender tudo o que lhe acontecia, cumpriu a missão de ser serva fiel. Pronto! Deus a fez pura, imaculada, sem qualquer pecado, falha, ou imperfeição... não se trata de assumir o lugar de Deus ou de um semideus. Não! Mas, reparando bem nela, contempla-se um ser como Deus, tendente a Deus, de forma contínua e ininterrupta, de sorte que a sua entrega completa aos desígnios divinos a fez plena de uma plenitude inesgotável, capaz de todo o tempo apresentar a Deus os belíssimos frutos de seu devotamento completo.


Maria Imaculada! Maria de Deus! Como seria bom se todos compreendêssemos teu sim, tua entrega, tua adesão! O que seria do mundo se lhe faltasse a tua entrega? Quem, ó Mulher, poderia ousar assumir o teu lugar? Quem seria tão plena na serviçalidade? Quem, na humildade? Quem, na perseverança intrépida? Quem ousaria trazer no ventre o Verbo encarnado?


Oh, Senhora de Nazaré, de todos os lugares, de todos os nomes, de todas as raças e de todas as etnias! Vem em nosso socorro, para nos apontar que o amor deve superar o ódio; a paz, o arrivismo tosco e chulo; a fé provada e testemunhada, as falsas expressões de religião; o serviço, as posturas tíbias, lânguidas de uma vida sem sentido e inserta no vazio. Aumenta em nós a fome de Deus e elimina a fome de pão... ensina a partilhar.


Senhora, Imaculada, que te fizeste servidora de Deus, roga pelo teu povo, a fim de que um novo Natal se faça realidade e que as pessoas compreendam a proposta de Teu Filho Jesus. Ensina-nos a rezar, a servir e a construir comunhão. Amém.


Jerônimo Peixoto é filósofo, teólogo, advogado e pós-graduado em Metodologia Didática do Ensino Superior. É autor do livro "Memórias de um Cajueiro" e cordelista. Possui ampla atuação no campo religioso e social e também como palestrante.