Sim, chorei. Na medida que amei, chorei


Escritos de um andarilho, sedento de salvação. Sedento para salvar. Eis o resumo de uma manhã em que o meu Altar foi a maca na UTI de um hospital, “imagem” da Igreja. Ou aquilo que, em Cristo, devemos nos tornar: “hospitais de campanha” para tantos que sofrem. Inumeráveis. Nenhuma dor, nenhuma lágrima, nenhum grito é indiferente ao Coração de Deus. Nenhum! O meu não foi, o seu não é. Creia!


Pois bem, depois de uns dias com o coração inquieto por tantas histórias e tantos lutos, mas firme em Cristo, Esperança que não decepciona, pude encontrar o Pe. Valdes Aparecido, amigo e irmão no sacerdócio numa UTI geral, após quase 1 mês de luta contra Covid-19. Já estou unido a ele desde aquele dia 7 de maio de 2018, quando fui acolhido no Presbitério da Arquidiocese de Aracaju. Ele me ajudou muito no caminho formativo no tempo do seminário, sendo meu professor de Teologia Fundamental e Teologia e Espiritualidade Sacerdotal, sendo a primeira porta de entrada na Ciência Teológica.


Um estudo sério de Teologia deve aprofundar os grandes temas da Fé. E na Fundamental aprendemos conteúdos que, ou levamos a sério ou nosso estudo de teologia será uma água com açúcar. Uma garapa. Sem vida e sem sabor. Sem profundidade. E foi com o professor Valdes, entre outros, que aprendi que o tempo de hoje necessita de respostas maduras, firmes e sérias. Como ser um fiel, professar a fé cristã católica sem conhecer a Revelação, a Tradição e o Magistério? Igreja sem profetismo, sem parresia, indiferente a dor do mundo? Esqueceu de visitar o Evangelho. Não, essa igreja não aprendi nas aulas com o querido Pe. Valdes. Não. Páginas tecidas com coração, os excessos sejam relevados. Tessituras do coração. Não é uma apologética ao padre. Não, mesmo. É Coração.


Pois bem, voltemos ao meu Altar na UTI. Não sabia qual modo encontraria o padre. Imaginava. O coração estava apertado. Cristo em mim. Me identifiquei, tudo dentro dos protocolos de saúde e entrei. Começava o meu êxodo. De Amor, sem volta, sem fim. Doído e cheio de Esperança. Cheguei no leito do padre, olhei nos seus olhos, ainda sedados, mas abertos e cheios de vida e mística e disse: está me conhecendo? Ele balançou a cabeça, querendo dizer sim. Eu continuei. Vim aqui para dizer que te amamos, que o senhor não está só, e que a sua dor é nossa. Força! Disse: agora vou te ungir e vou rezar no senhor. Fiz o rito da Unção dos Enfermos. Um dos mais intensos da minha vida. E, na verdade, eu fui ungido pelo olhar do padre. Que unção! E depois dei um afago na testa dele e juntos choramos. Choro de Vida. De Amor no Amado. Choro de Vitória. Choro sacerdotal.


Só um coração sacerdotal entende outro coração sacerdotal. Cristo chorando naquela maca, sim. Cristo em nós. Eu queria ficar ali, confesso, mas tinha que ir. Tabor, Calvário e Tumba Pascal. É Páscoa, Ele Ressuscitou, como disse. Aleluia. Olhei mais uma vez para os olhos dele e disse: te amamos, obrigado por me ajudar a ser o padre que sou. Ele queria dizer algo, senti nos seus olhos. Ele disse muita coisa. Foram meus 10 minutos no Céu. Não me peçam explicação. Pascal dizia que o coração tem razões que a própria razão desconhece. Era Trindade. Era Céu. Eram dois padres lutando pela vida. Ele na maca, e fiz da sua maca o meu Altar no dia de hoje.


Foi assim, e minha Eucaristia hoje teve sabor e gosto de Céu. Ele sempre dizia em suas aulas: se o coração não arde, os pés não andam. Permanece conosco, Senhor! Permanece. Minhas letras, meu Coração, Sacerdotal.


Pe. Anderson Gomes, pároco da paróquia São Pedro Pescador (bairro Industrial, Aracaju).