Talentos desenvolvidos



O Reino de Deus é um dom oferecido por Cristo, com a Sua redentora, a nós. Uma dádiva a ser cultivada, a render em nosso coração, sempre crescendo em nós, num progresso que se espalhe em nosso derredor, no mundo. No resguardar tal presente, desenvolvendo-o, devemos, de maneira constante – numa espécie de exame de consciência, de “prova dos nove” –, indagarmo-nos, subjetivamente: como estou fazendo “render” o Reino através do que recebo do próprio Senhor?


Jesus está a sós com seus discípulos (cf. Mt 24,1), e, parabolicamente, fala-lhes, de maneira simples, acerca da atividade daqueles a quem foi incumbida a propagação do Reino: os cristãos. Por isso, "um homem ia viajar para o estrangeiro” (Mt 25,14a). Quem é este homem senão Jesus? Por isso, São Gregório Magno afirma: Este homem que viaja para o distante é o nosso Redentor que subiu aos céus, com aquela carne que havia tomado, a qual tem seu lugar próprio na terra e é elevada como em peregrinação, quando é colocada no céu por nosso Redentor (Homiliae in Evangelia, 9,1). Sim, o céu é uma terra estrangeira porque, embora já tenhamos a cidadania celeste (cf. Ef 2, 19), ainda não adentramos plenamente naquela bendita terra; porém, pelo Cristo, já temos a sua garantia.


“Chamou seus empregados e lhes entregou seus bens. A um deu cinco talentos, a outro deu dois e ao terceiro, um; a cada qual de acordo com a sua capacidade” (Mt 25,14b-15). Talento, apesar de uma unidade monetária da época, pode ser interpretado como tudo o que o Senhor nos concede para que multipliquemos em uma vida virtuosa para a construção do Reino. A primeira vista, temos a tentação de pensar que este patrão é injusto, ou desconfia de alguns dos seus subalternos, porque, conforme a nossa humana compreensão, se ele fosse realmente justo, teria distribuído os seus talentos equitativamente. Não, o patrão não é injusto; o evangelho é categórico em frisar: “de acordo com a sua capacidade”. Capacidade é uma palavra marcante. Percebemos na Igreja diversos graus hierárquicos, o que seria isso senão a capacidade de cada um? Cuidado para não confundirmos capacidade com méritos; capacidade com santidade ou dignidade. Não. Capacidade é um termo que designa distinção de papéis para a consecução de algo. Logo, podemos estar certos de que a todos os empregados deste patrão foram entregues talentos para serem acurados. Assim, todos, sem exceção, recebemos talentos e responsabilidades do próprio Senhor para o bem do seu Reino.


Podemos notar ainda que o Senhor não pede para que os seus empregados multipliquem as quantias confiadas. Porém, se ele entrega os seus bens (não uma mera parcela), como patrão, ele quer que o seu dinheiro renda, multiplique. Sabemos, pelo Evangelho, que tanto o primeiro quanto o segundo empregado entendem os planos de seu patrão; o terceiro, não (cf. Mt 25,16-18). Pelo contrário, enterra o talento recebido. O que ele quer de nós, pobres empregados? Logicamente, que façamos crescer, render, desenvolver o Reino. O Reino é o seu empreendimento, isso falando em uma linguagem comercial.


“Depois de muito tempo, o patrão voltou e foi acertar contas com os empregados” (Mt 25,19). O espaço de tempo é sublinhado para revelar que passou muito para que o que fora entregue tivesse condições de, pelo menos, duplicar. Este tempo são os séculos até a volta do Senhor na Parusia. Quando, diante dele, prestaremos contas da nossa atividade de apostolado. Quanto mais tempo o Senhor tardar para voltar, mais oportunidade teremos para impregnar o mundo com os valores do Reino. Em compensação, mais esfarrapadas serão as desculpas que lhe daremos se não fizermos render o seu Reino.


Ao primeiro e segundo empregados, cuja duplicação foi comprovada pelo patrão, há o justo reconhecimento dos seus trabalhos, agora acompanhados de maiores obrigações, bem como de um convite especialíssimo: “Vem participar da minha alegria!”. Uma vez que demos o nosso sim e fizemos frutificar o talento que recebemos, o Senhor nos confiará ainda mais. Depois, participaremos da sua alegria, no céu. O nosso patrão é exigente, porém, é justo.


O terceiro empregado já sabia, a priori, o perfil do seu patrão. Porém, mesmo assim, faz questão de lhe desagradar, enterrando o que recebeu. Nós já fomos previamente avisados pelo próprio Jesus acerca do que acontece quando, de livre e espontânea vontade, nos esquivamos no serviço de frutificação de seu Reino. Aos servos criativos e disciplinados o patrão lhes felicita, enquanto que ao último, nomina-lhe mau e preguiçoso (cf. Mt 25,26) como oposição a bom e fiel, pois fez questão de amargurar o seu senhor. A ganância deste empregado não permite nem que aquele valor frutifique em seu coração. Não. Arbitrariamente, ele esconde, inclusive de si, o que recebeu bondosamente.


A dinâmica do Reino escapa ao entendimento do mundo. Quando o patrão ordena: “Tirai dele o talento e dai-o àquele que tem dez! Porque a todo aquele que tem será dado mais, e terá em abundância, mas daquele que não tem, até o que tem lhe será tirado” (cf. Mt 25,28.29), quer dizer que a causa do Reino tem pressa; o que tem dez tem maiores capacidades de fazê-lo multiplicar com mais eficiência. O Reino de Deus urge!


Deus quer contar conosco. Somos Seus instrumentos para a salvação do mundo pela propagação do Seu Reino. Para tanto, concede-nos dons que, desenvolvidos, servem para executarmos esta tarefa de responsabilidade e de amor. Sejamos fiéis, e não nos eximamos pelo desleixo, indiferença ou preguiça.


Padre Everson Fontes Fonseca, vigário paroquial da paróquia São João Batista (Conj. João Alves).