Uma fé comprometida com a defesa da vida



O relato do Livro do Gênesis mostra que na criação do homem e da mulher, esta deriva de uma das costelas do homem. O conjunto de significados deste relato é bastante vasto, porém é possível acentuar algumas propostas, como por exemplo: trata-se de uma realidade que está sempre ao lado. Nos sonhos de Deus, não existem relações de inferioridade e superioridade entrelaçando o homem e a mulher, mas sim uma frutuosa relação de companheirismo, de frutuosa reciprocidade em prol da vida em abundância descrita por Jesus (Gênesis 2, 18.21-24; João 10, 10).


O homem precisa ser enriquecido pela feminilidade, ou seja, pela ternura e determinação que caracterizam a alma da mulher. Aproximando os termos húmus e mulher, compreendemos o papel da mulher na história da criação, conservando-a, enriquecendo-a com as cores da generosidade e da doação. No sacramento do matrimônio, a família emana do serviço em prol do outro. Assim, o esposo cultiva e é cultivado pela esposa, para que juntos colham os frutos da comunhão, partilhados com os filhos recebidos das mãos de Deus.


Cada agressão cometida contra a mulher, desfigura o rosto de Deus, que a criou para abrilhantar e conduzir a humanidade nos momentos mais cruciais com as respostas audaciosas que brotam da coragem da mulher destemida, que como Maria não hesita em dizer sim a Deus, diante de cada situação, por mais desesperadora e angustiante que seja. Dizer sim a Deus é acreditar na vida, implica uma disposição constante em busca de justiça contra as atrocidades que desfiguram o rosto das mulheres, filhas, mães e esposas do Dom da Vida (Lucas 1, 38).


Os setores políticos, instâncias jurídicas, instituições religiosas, precisamos todos dar as mãos em prol da defesa da mulher. É uma grande contradição que no Brasil, país cristão, católico e com várias religiões de matriz africana, a mulher seja constantemente agredida, sobretudo por namorados e esposos, responsáveis por sua defesa, zelo e cuidado integrais. O Brasil não pode ser o país do holocausto da mulher, vitimada por uma masculinidade covarde.


Em 2021, uma mulher foi morta no Brasil a cada sete horas. O que acontece? O Evangelho está preso nas igrejas? Não somos capazes de levá-lo aos lares do Brasil? A Lei Maria da Penha completa 16 anos, um marco da trajetória jurídica, que se não trouxe tudo o que esperávamos em termos de defesa da mulher, segue firme à disposição da proteção integral da mulher brasileira.


A Sagrada Escritura descreve Deus da seguinte forma: Ele ouviu o grito do seu povo. Fé e insensibilidade não caminham lado a lado. Fé não é cega, surda e muda. Precisamos ouvir e agir. A fé mete a colher nas situações de violência contra a mulher. Deus responde aos gritos de socorro das mulheres através de nós, quando não somos coniventes e rompemos com a indiferença. Peçamos a Nossa Senhora Aparecida, Mãe do povo brasileiro: Dai-nos uma fé comprometida com a defesa da vida (Êxodo 3, 7).


Pe. João Claudio da Conceição é pároco da paróquia Nossa Senhora Aparecida (Bairro Farolândia)


Fonte: https://www12.senado.leg.br/radio/1/noticia/2022/08/10/aprovado-agosto-lilas-campanha-anual-de-combate-a-violencia-contra-a-mulher.