• Pe. João Claudio

Ver a morte sob a luz da vida

Atualizado: 5 de Nov de 2019



Há uma experiência determinante em toda a trajetória humana que comumente chamamos de morte. Este é um fenômeno universal que cedo ou tarde, de uma forma ou de outra, surge provocando interrogações. O fato é que a morte é uma antiga companheira que caminha ao lado da vida. A morte deriva do pecado, da ingratidão humana diante da bondade de Deus. É o pecado original que cria os desequilíbrios vistos na humanidade. É a expressão do apóstolo Paulo que melhor traduz esta realidade na Carta aos Romanos: “Com efeito, não faço o bem que quero, mas pratico o mal que não quero. Ora, se faço o que não quero, já não sou eu que ajo, e sim o pecado que habita em mim” (Romanos 7,19-20).


A vida de Jesus Cristo mostra uma maneira diferente de reler o fenômeno da morte, não mais como um ponto final. Em Jesus Cristo a morte não deixa de ser um ponto, mas um ponto continuando. A pessoa humana procede de Deus, deseja encontrá-lo na vida e é para Deus que retorna. Meditar acerca da morte suscita uma revalorização contínua da vida. Se estamos construindo a vida sobre a areia ou sobre a rocha que é o próprio Cristo. Se buscamos só coisas fugazes e passageiras ou se acumulamos “tesouros no céu, onde nem a traça, nem o caruncho corroem e onde ladrões não arrombam nem roubam; pois onde está teu tesouro aí estará também teu coração”, diz a Escritura Sagrada (Mateus 6,20-21).


É bem certo que a morte incuti a tristeza nas linhas da história humana pois acreditamos que esta é escrita só por nossas mãos, quando na verdade as mãos humanas são conduzidas pelas mãos de Deus. As mãos que criaram a humanidade são as únicas capazes de renová-la. Só as mãos que criaram cada coração humano podem transformá-lo. Somente as mãos que criaram cada pessoa humana são capazes de ressuscitá-la. Sendo assim, o cristão não pode mais separar a morte da ressurreição. Em Jesus não há uma comemoração da morte mas há sempre a Festa da Vida. Jesus chora e se alegra com toda a humanidade. No relato do Evangelho, Jesus chora diante da morte de Lázaro, mas este choro prepara a alegria da ressurreição contida na oração de Jesus que grita em alta voz: “Lázaro vem para fora!”. Em toda situação, é Jesus que chama, é Ele que retira da morte, é Ele que devolve a vida (João 11,43).


“Quem não vive para servir, não serve para viver”. Esta expressão popular está em plena sintonia com o Evangelho. É o próprio Cristo que diz que “não veio para ser servido, mas para servir e dar a sua vida como resgate [...]”. Em Cristo a morte não possui mais a última palavra sobre a humanidade. Há uma expressão da Liturgia Eucarística que diz: ‘Senhor, para os que creem em Vós, a vida não é destruída mas transformada’. Em Cristo, é a morte que deve acertar as contas com as virtudes teologais da fé, da esperança e da caridade. Na Escritura Sagrada, tais virtudes são apresentadas desta forma: a fé terá o seu ápice pois O veremos face a face, a esperança verá a realização das suas expectativas, a caridade que é o amor em movimento, esta permanece para sempre (Mateus 20,28; 1 Coríntios 13,12-13).


O coração do cristão está sempre iluminado pelo Espírito Santo Vivificador. É o sopro de Deus. O Ruah que procede do Pai e do Filho, como a Santa Igreja proclama na Oração do Credo. É Aquele que renova todas as coisas que amedronta e destrói os laços da morte. O cristão guiado pelo Espírito Santo ouve o chamado de Jesus contido no Santo Evangelho: “Vinde, benditos de meu Pai, recebei por herança o Reino preparado para vós [...]. Pois tive fome e me destes de comer. Tive sede e me destes de beber”. Toda vida dedicada ao serviço permanece para sempre guardada nas palmas das mãos de Deus. Assim a morte deixa de ser vista como destruição e pode ser lida como retorno. O Evangelho diz que o Pai cheio de compaixão virá ao nosso encontro, nos cobrirá de beijos, nos revestirá com a melhor túnica e festejará conosco perdoando-nos e feliz pelo bem que fizemos na terra (Mateus 25,34ss; Lucas 15,22ss).


Pe. João Cláudio da Conceição é pároco da paróquia Nossa Senhora Aparecida (bairro Farolândia, Aracaju)

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