Vocação matrimonial e vocação da Família

José Ginaldo de Jesus


Em 1981, a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), instituiu agosto como sendo o Mês Vocacional. O objetivo principal é o de conscientização das comunidades a respeito da responsabilidade de todos os cristãos que compartilham no processo vocacional, como disse São João Paulo II: “Por isso, a promoção das vocações sacerdotais, religiosas... há de ser uma prioridade dos bispos e um compromisso de todo o povo de Deus” (Doc. de S. Documento nº 82).


Vocação é uma palavra derivada do verbo latino vocare que significa chamar. Portanto, “é a resposta humana a um chamado divino”. Ao longo do mês de agosto, cada semana é dedicada à celebração de uma vocação. Como em 2020, o mês de agosto contém cinco domingos, teremos a oportunidade de refletir sobre cinco tipos de vocações, a saber: 1ª Semana: vocação para o ministério ordenado: diáconos, padres e bispos; 2ª Semana: vocação para a vida em família (Dia os Pais); 3ª semana: vocação para a vida consagrada: religiosas (os); 4ª semana: vocação para os ministérios e serviços na comunidade; e último domingo: Dia Nacional do Catequista.


Consciente disso, e partindo daquilo que propõe a Mãe-Igreja, trago-lhes uma singela reflexão sobre o que significa responder ao chamado divino, assim como sobre a importância das ações que uma família pode realizar, na vivência de sua vocação, a partir do Sacramento do Matrimônio. Sim, o Matrimônio é uma vocação, à qual respondem o homem e a mulher, chamados (vocacionados) por Deus, para formarem uma família. Importante destacar a ordem ou seqüência dos fatos, no contexto bíblico: primeiro o matrimônio, depois a formação da família. O Livro do Gênesis está escrito: “Deus criou o homem à imagem de Deus, criou o homem e a mulher. Deus os abençoou: “Frutuficai, disse ele, e multiplicai-vos...” (Gen. 1, 27-28). Vejamos que primeiro veio a bênção, que atualmente é ministrada pelo sacerdote que assiste ao Matrimônio, depois a ordem para “frutificar e multiplicar”, a partir da união dos corpos, que “já não são mais que uma só carne” (Gen. 2,24).


Portanto, para o casal cristão, que crer em Deus e em Seu Filho Jesus e considera a Sagrada Escritura, o casamento só se realiza enquanto Sacramento, isto é, união sagrada diante de Deus aqui representado pela Igreja. Primeiro, porque o cristão foi batizado, e tornou-se filho de Deus: Por isso, o rapaz e a moça cristãos podem dizer o que disse Tobias a Sara sua esposa: “Somos filhos dos Santos (patriarcas) e não devemos casar como os pagãos que não conhecem a Deus” (Livro de Tobias, 8,5). Depois, porque o cristão é membro da Igreja, na qual toda a sua vida deve ser santificada. Por isso São Paulo disse a respeito do casamento: “Este sacramento é grande; digo-o com relação a Cristo e à Igreja” (Ef 5,32).


Outro dia, enquanto ministrava uma aula de Sociologia da Religião, num Curso de Teologia, uma aluna me perguntara: “Professor, católicos, devemos nos casar no civil ou basta no religioso?”. Sim, respondi-lhe, explicando. Por duas razões básicas: Primeira, porque é um contrato que tem conseqüências jurídicas e sociais. Segunda, porque os noivos são cidadãos, sujeitos à lei civil. E assim como nos ensinou a Família de Nazaré e o próprio Jesus, devemos também nós cumprir as leis civis. No entanto, o ato civil, por si, não vale como matrimônio... Pois, o Matrimônio, como Sacramento, é ministrado unicamente pela Igreja.


Veja que lindo caro leitor: “A aliança matrimonial, pela qual o homem e a mulher constituem entre si uma comunhão da vida toda, é ordenada por sua índole natural ao bem dos cônjuges e à geração e educação da prole, e foi elevada, entre os batizados, à dignidade de Sacramento por Cristo Senhor.” (CIC, 1601). Nesse sentido, a Vocação do homem e da mulher, cristãos batizados, que respondem “sim” ao chamado à Vida Matrimonial e à formação de uma família, não se encerra em si mesma... Ao responderem “sim” ao chamado do Senhor ao Matrimônio e à formação de uma família, o homem e a mulher também são chamados, por conseguinte, à educação da prole a eles confiada. E juntos, como família, são vocacionados à santidade, como premissa da vontade do Criador que “nos escolheu nele antes da criação do mundo, para sermos santos e irrepreensíveis, diante de seus olhos” (Ef 1,3-4).


Apesar das profundas mudanças históricas, a família continua a ser a mais completa e mais rica escola da humanidade, na qual a experiência mais significativa do amor gratuito, fidelidade, respeito mútuo e a defesa da vida são vividos. Sua tarefa específica é preservar e transmitir, através da educação dos filhos, virtudes e valores, para construir e promover o bem de cada um e da comunidade. Esta mesma responsabilidade compromete a família cristã pelo fato de que seus membros, já consagrados e santificados pelo batismo, são chamados a uma vocação apostólica particular, pelo Sacramento do Matrimônio (cf. Familiaris Consortio , 52, 54).


A família, na medida em que ela se torna consciente desta vocação genuína e responde a ela, torna-se uma comunidade de santificação em que se aprende a viver a mansidão, a justiça, a misericórdia, a castidade, a paz... (cf. Ef 4, 1-4; Familiaris consortio , 21). Torna-se o que, em outras palavras, São João Crisóstomo chama “a igreja doméstica”, ou seja, o lugar onde Jesus Cristo vive e trabalha a salvação dos seus membros e o crescimento do reino de Deus. À luz desta perspectiva da graça divina e a responsabilidade humana, a família pode ser considerada um "jardim" ou como a "primeira semente", onde as sementes de vocação (e da santidade) que Deus espalha, encontrou as condições para germinar e crescer até a maturidade plena (cf. Optatam totius , 2).


A Vocação se configura em três aspectos ou dimensões: O chamado, que vem do Criador; a resposta, que é humana; e a missão, que será decorrente da resposta. Assim, como família, unida pelo Sacramento do Matrimônio, eu, minha esposa e a nossa filha, temos procurado viver e responder, com simplicidade e generosidade, à vocação a qual fomos chamados, nestes 41 anos de casados, colocando-nos também a serviço do Reino de Deus, através dos organismos da Igreja aos quais Ele nos destinou: O Movimento ‘Vocacional’ Serra, o Movimento de Cursilhos de Cristandade, o Serviço de Animação Vocacional (SAV), o Encontro de Casais com Cristo, o Seminário Maior de Aracaju, onde tenho a honra de ser professor etc.

Concluo caro leitor, repetindo as palavras de Dom Antônio Afonso de Miranda, SDN: “Para quem não tem religião, o casamento é simplesmente união de amor de um homem e uma mulher. Mas, para quem acredita em Cristo e na Sua Igreja, o Matrimônio é Sacramento, isto é, ato sagrado, pelo qual a união de amor do homem e da mulher se torna santa e eles iniciam a vida conjugal e familiar com as bênçãos de Deus” (Livreto “O que é preciso saber sobre o Casamento, Santuário).


Portanto, casamento e família são inseparáveis. E família significa união de amor entre esposo e esposa e entre pais e filhos, amor que deve ser sempre cultivado e renovado pela boa vontade, pelo esforço, pelo perdão, e, sobretudo pela presença de Deus no lar. “Assim, já não são dois, mas uma só carne. Portanto, não separe o homem o que Deus unir.” (Mt 19,6).


José Ginaldo de Jesus é professor e coordenador pedagógico no Seminário Maior de Aracaju. É escritor, autor dos livros “A Vida Como Vocação” (2018) e “Concepções Poéticas” (2019). É membro do Movimento Cultural da Academia Sergipana de Letras, ocupante da Cadeira nº 20. É coordenador estadual e vice-presidente nacional do Movimento Serra do Brasil.

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